Estou a ver o programa ‘e se fosse consigo’ sobre a atitude das pessoas com a deficiência. O nosso Manel, (que me custava muito se alguém entendesse como ‘deficiente’, pois para nós ele é só especial no seu cromossoma 47 e com ele teremos sempre nós muito a aprender nesta vida), trouxe-me, entre tantas coisas muito boas (e, claro, outras muito exigentes também), uma sensibilidade muito grande quanto a todas as pessoas diferentes, seja intelectualmente, seja fisicamente. É hoje muito fácil para mim as lágrimas escorrerem de orgulho em algumas situações. Porque o que me faz hoje chorar são mais as situações de alegria do que de tristeza. Pessoas limitadas involuntariamente em algum aspecto na vida são uns autênticos heróis. É assim que os vejo. Estão cá nesta vida para nos ensinarem o valor real do amor, da família, da entrega, da capacidade de sairmos de nós mesmos para tornarmos o outro mais feliz do que seria se estivesse sozinho. (E Bernardo mano, SIM, és uma inspiração tão grande! ) Não, não é chavão, não é um disfarce, só acredita quem passa por elas: sim, sou uma pessoa mais feliz por ter um filho como o Manel conosco e na nossa família. Mas ontem, às compras no IKEA, veio pela primeira vez um arrepio no estômago, uma vontade de chorar que, desta vez , meio confusa, não resistiu por uns segundos. E porquê?

Porque, orgulhosa como tudo, passeava com o meu Manel e reparava que tantas pessoas olhavam para ele de maneira diferente. Ou persistente, mas sem sorrir. Na zona das crianças, desisti de tirar o Manel para brincar um bocadinho. Porque só não me apeteceu continuar a sentir esse olhar, sem maldade nenhuma, apenas porque é diferente, o meu bebé. E a seguir era para mim, deviam pensar ‘Coitadinha!’. CARAMBA! Eu juro por tudo que senti foi só : ‘o meu Manel é lindo, é um bebe único, tão especial, tão cúmplice no seu olhar, tão curioso naquele brilho todo que o envolve, tão quentinho no seu coração que até já renasceu uma vez, tão eloquente na forma como nos une a todos. Se vocês soubessem…’

Porque razão este olhar persistente das pessoas não pode ser apenas porque ele é tão bonito assim? Porque é que se esquecem de fazer um esforço por olhar para dentro, reparando apenas nos traços que o tornam diferente dos outros? E depois exclamariam para si, através de um simples sorriso que, nesta avenida de Roma tantas vezes já senti da parte de senhoras velhinhas – claro, são elas que trazem a experiência da vida consigo e que nos ensinam tanto com uma simples exclamação sorridente: ‘ele é tão bonito!’. Era só isto que eu queria ontem, naquele momento.

Filipa Pinto Coelho