Como mãe de um menino” de 26 anos e fazendo parte da Associação Pais 21, que tanto defende que em todas as fases da sua vida os nossos filhos sejam tratados com dignidade e com a sensibilidade com que se trata qualquer pessoa da sua idade, continua a arrepiar-me por sistema chamarem lhes “meninos” –  matulões de barba rija e a jovens a pensarem em maquilhagem e namorados. Como de modo geral eles próprios são condescendentes, percebem e nada dizem, mas eu confesso que me irrita muito. Porque infantilizá-los não os ajuda em nada, porque acreditamos que poderão ser olhados de outra forma e que não podemos ser nós, pais, os primeiros a tratá-los assim. Queixamo-nos muito que não há empregos para os nossos filhos , que não há oportunidades, que a culpa é do governo, disto, daquilo, mas nunca de nós próprios para quem os nossos filhos com trissomia 21 são sempre os nossos meninos queridos, com tudo o que isso, no nosso subconsciente implica.  Entrevistei já jovens que buscam uma atividade profissional. Tudo corre bem, até que de repente os pais realizam que eles vão mesmo começar um percurso de independência e então assustam-se e, de repente, o jovem adulto volta a ser o menino. Horroriza-os pensar que ele deixa de estar em casa para ajudar e fazer companhia, que o subsídio possa estar em risco, que o companheiro de sempre deixe de estar ali, de repente o filho atento, pronto a dar aqule beijinho e abraço não esteja. Pondera-se e  “está bem” deixam-no ir, mas só durante um tempo, depois ele volta… Afinal onde fica o nosso sonho de acreditar nesse menino que nasceu há tantos anos?  Onde está o sonho deles ?  Porque eles têm sonhos e, como nós, esses sonhos não são sonhos de meninos: são sonhos de casamento, de sair de casa, de ter um emprego. Não vamos estar cá sempre para que ele preencha a nossa vida afetiva. Temos obrigação de os deixar ser adultos, porque de facto, a maioria será capaz de o ser. Não pensemos apenas em nós, mas também nos irmãos, que não têm que ser os eternos baby sitters dos seus irmãos, mas apenas irmãos responsáveis e amigos desse irmão que não é assim tão diferente.

Carmo Teixeira | Abril 2017