Li há dias esta frase:

Em 1970 a maioria das pessoas com t21 não sabiam ler nem escrever, não frequentavam a escola e viviam institucionalizadas sem qualquer perspectiva. Em 2016 as crianças e jovens com t21 frequentam a escola, aprendem a ler e a escrever. Têm amigos, trabalham, namoram e têm vidas praticamente autónomas. O que mudou? O cromossoma é o mesmo. 

Nunca as condições foram tão propícias ao desenvolvimento das pessoas com t21. A evolução da medicina permite tratar os problemas de saúde. Terapeutas especializaram-se e sabem ajudar e apoiar as famílias, estimular e acompanhar as crianças e jovens. Os individuos com t21 nunca foram tão longe e ultrapassam-se a cada dia.

Apesar destas previsões positivas, nunca nasceram tão poucos bebés com t21 como atualmente. Se há duas décadas 1 em cada 600 bebés nascia com t21, hoje fala-se de 1 bebé em 1000 nascimentos. Tendência decrescente. Há países cuja taxa de nascimentos de bebés com t21 é já de zero nascimentos, tudo para bem de uma qualquer sociedade que andamos a construir.

No nosso país os pais podem decidir até às 24 semanas de gravidez se querem ou não o seu bebé com t21 (Lei nº 16/2007 de 17 de Abril), o que tem contribuido para um recuo nos nascimentos.

A questão que aqui se coloca não é a legalidade, mas se aquilo que está a acontecer é bom, do ponto de vista ético. A sociedade estará a tornar-se melhor porque há cada vez menos indivíduos com t21? Como justificamos o extermínio consentido de um grupo de pessoas, sabendo que aqueles que lidam com eles são mais felizes por isso?

Nesta incessante procura de uma sociedade perfeita, temos tendência a esquecer que, aquilo que nos é permitido legalmente não tem que ser uma situação boa e eticamente aceitável.  

Quando um Ministro da saúde de um país europeu diz publicamente, que se amanhã não existirem pessoas com t21, temos que o aceitar, sabemos que algo está mal no caminho pelo qual  enveredados.

Com uma taxa de zero nascimentos de crianças com t21 não estamos a contribuir para um mundo melhor e mais humano. Estamos a enveredar pelo caminho perigoso da seleção eugénica.

Não posso aceitar. Até porque por trás destas decisões está uma certa hipocrisia e uma pseudo-moral.

Afinal, quais os argumentos apresentados para a IVG de um bebé com t21? Ouvimos muitas vezes referir o medo, a vergonha, o não ser capaz, o não estar preparado, os custos. Ora, muitas destes argumentos não se referem ao bebé, mas sempre e apenas ao eu. Ou se quer ter um filho ou não. Se quero, o nosso filho poderá dar trabalho.

Deixemo-nos de hipocrisias, somos egoístas e empacotamos este sentimento em justificações falsas de incomptiblidade com vida, desgraça, sofrimento.

 Lamento informar, nada disto vem com a t21. Olhamos mas não queremos ver.

Não foi por acaso que mães francesas que interromperam a gravidez com bebés com t21 se sentiram incomodadas com o filme “Dear Future Mom” . A felicidade, que o video mostra,  ofendia-as. E a sociedade francesa concordou. Se tens t21 ao menos sê infeliz, para que eu possa justificar a minha decisão. Não. Não posso aceitar pacificamente que pessoas como a minha filha não tenham direito à vida.

Lamento informar, estamos bem, felizes e recomendamo-nos!

Nota: este texto não é uma discussão ao aborto, apenas e somente à pratica de seleçao de bebés que são desejados e abortados por terem t21.

Marcelina Souschek,  2017