Quantas vezes ouvimos nós, pais de crianças e jovens com trissomia 21 (t21), esta frase. Parece que os nossos filhos com t21 nasceram todos com este dom. Ter t21 é aos olhos dos outros a capacidade de estar sempre feliz. Não é preciso que façamos alguma coisa para isso, os nossos filhos com t21 são felizes, porque sim.

Confesso que a teoria à volta da felicidade me aborrece. É um daqueles disparates que tem por base a desresponsabilização de quem o diz e assim pensa. Se tenho alguém que está sempre e em qualquer circunstância feliz, nada há nada que eu possa fazer para melhorar. Todos nós queremos alcançar este estado de bem-estar, a felicidade, que me parece ser expoente máximo da nossa vida.

A pessoa com t21 nasce com imensa sorte, não tem que fazer nada enquanto nós, sem t21, para sermos felizes temos que fazer ou alcançar alguma coisa. Muitas vezes temos que nos superar, sair da nossa zona de conforto. Que feliz que estava o meu filho Vasco quando finalmente marcou aquele golo inesperado. Ou a minha filha Rita com aquele “Bom” no teste de matemática. Que chateada que fica a minha filha Vera quando não lhe dão tempo para responder ao que lhe perguntam. A felicidade é para todos nós um momento gratificante que alcançamos de vez em quando. Que graça teria a vida se fôssemos sempre felizes. E se nunca houvesse tristeza, como saberíamos que estamos felizes?

As pessoas com t21 não são exceção. Sentem-se felizes e conhecem muito bem momentos de maior tristeza. Estreou no passado dia 22, no canal A&E uma nova série americana “Just like me” sobre 6 jovens com t21. Estes jovens partilham connosco a sua vida. Falam-nos sem filtros dos medos, da felicidade, do amor, da raiva, da auto-estima. Foi curioso ver uma jovem com t21 dizer que era uma pessoa infeliz, que não gostava de si por ter t21. Dizia que gostava de ser diferente, que não gostava quando as pessoas olhavam para ela. Dizia, não sou feliz como sou.

Da próxima vez que se cruzar com uma criança ou jovem com t21 lembre-se que tal como nós, a tristeza e a felicidade são apenas um momento e que cada um de nós pode ser responsável por tornar a vida do outro mais feliz. Não nos desresponsabilizemos com frases feitas. Vamos a isso?

Marcelina Souschek é mãe da Vera, 2016