Há uns bons anos, por mero acaso, li na revista do “Expresso” um artigo sobre uma senhora que andava na sua bela vida quando, um dia, descobriram que ela tinha trissomia 21. Achei curioso e até intrigante. Afinal, não é coisa que costume passar despercebida.

Estava, no entanto, a milhas de imaginar que um dia, eu própria, iria ter uma filha com os cromossomas baralhados e que viesse a conhecer pessoalmente esta senhora. Quando estava grávida da Xiquinha, e porque tive diagnóstico pré-natal, fui a um encontro sobre trissomia 21 onde vi pela primeira vez a Ana Maria. Num estrado, de pé, contava a sua história com naturalidade, humor e boa disposição. Tinha tantos traços físicos de “trissómico” como uma data de pessoas que conheço que aparentam uma vaga ascendência oriental. E falava com uma fluência idêntica à dos técnicos que haviam dissertado minutos antes.

O encontro foi ao pé do Coliseu e a sensação que dava era que ela era uma funcionária de uma qualquer retrosaria da baixa que tinha ali dado um pulinho para dois dedos de conversa. Não sei o que fazia na altura, mas poderia ser certamente empregada de uma loja sem que passasse pela cabeça de ninguém estar perante uma pessoa geneticamente alterada.

Reza a história que a Ana Maria teve uma vida perfeitamente comum. Tão comum como qualquer pessoa que nasceu normal.

Oriunda de uma família modesta, fez a sua escolaridade com alguns sobressaltos, tendo, no entanto, conseguido preencher os requisitos necessários para conseguir o diploma básico.

Casou, suponho que de vestido branco e a preceito, teve uma filha linda e seguiu com a vida como manda o almanaque. Um dia nasceu o Ricardo, com Síndrome de Down. Mandaram a mãe a uma consulta de genética e pediram-lhe para fazer o cariotipo. Passado um tempo, quando chegou o resultado, para sua estupefacção, descobriu que ela própria tinha Trissomia 21. Coisa estranha, vir a descobrir a meio da vida que se é portadora de uma coisa tão marcante.

Reencontrei a Ana Maria há um par de semanas num encontro em Castro Verde. Voltou a prestar um testemunho poderoso, daqueles que nos fazem reduzir à nossa insignificância. A Ana Maria tem Trissomia 21 em mosaico, o que quer dizer que apenas algumas das células estão afectadas. Quando se lhe pergunta se, à data da notícia, sabia o que isso queria dizer, responde prontamente que claro que sim. Como tinha tido um filho com Síndrome de Down, estava careca de saber tudo o que havia para saber sobre o assunto. Contou-nos ainda, com um sentido de humor invejável, o seu encontro hilariante com o Dr. Miguel Palha (reconhecidíssimo especialista em Trissomia 21). Já se tinha cruzado com ele, por causa do Ricardo. Mas, após lhe ter sido, a ela própria, diagnosticada a síndrome, resolveu marcar uma consulta. O Dr. Miguel recebeu-a e, quando percebeu que aquela senhora tão normalissimamente normal era portadora de trissomia 21, entrou em êxtase científico. Confessou-lhe que conhecê-la tinha sido, para ele, uma experiência semelhante à de Vasco da Gama, quando descobriu o caminho marítimo para a Índia. Divertidos, especulámos: “Ó Ana Maria, deve ter levado com uma boa hora de consulta”. “Qual quê, fiquei lá uma tarde inteira. O Dr. Miguel nunca tinha visto igual e mandava chamar gente para me vir conhecer. Estava a ver que não chegava a casa.”

No final do encontro fui falar com ela, acompanhada por uma espécie de desconcerto. Ao invés de uma pessoa retardada, estava à minha frente uma mulher informada, despachada, com um sentido prático extraordinário e dotada de humor inteligente. E fiquei a perceber onde estava o segredo. É que a Ana Maria teve a sorte de só “apanhar” trissomia 21 na idade adulta.

Francisca Prieto, 2009