“Quando penso no nascimento da minha filha recordo a minha mãe e o meu pai fortes como rochas. Estavam a sofrer como eu, mas em momento nenhum ouvi um lamento. Enquanto eu me sentia desgostosa com  a minha sorte, a minha mãe fez questão de levar a neta à pastelaria que frequentava, apresentá-la a toda a gente e dizer que a neta tinha nascido com t21. Na altura, nem me  apercebi da sua grandeza, hoje sinto-me grata por me ter dado uma grande lição. Eu não estava a ser capaz de a levar. Lembro-me também  do  meu pai, que assim que soube do diagnóstico precisou de ver a neta. Lembro-me dele a chegar, a pegá-la ao colo e dizer com toda a convicção: isto não é nada, vai correr tudo bem! E foi assim que pensou até morrer.

Em momento nenhum senti alguma distinção em relação aos outros netos, a mais pequena conquista foi sempre uma grande festa. Tenho a certeza que desde o primeiro minuto sentiram um orgulho especial por ela.”

Marcelina Souschek