Reconheço à minha filha Joana o direito de viver uma vida plena. Tenho consciência que terá sempre de ser acompanhada, aconselhada e supervisionada, o q hoje é feito por nós pais e mais tarde serão os irmãos a fazê-lo, embora atualmente já participem neste processo, pois estamos todos empenhados na sua realização enquanto pessoa. Esta realização passa pela concretização dos seus sonhos e aspirações. Alguns são um pouco disparatados, talvez próprios da idade, ou das novelas que tanto vê, mas outros são perfeitamente possíveis de atingir. Ela quis namorar desde cedo, sofria com o facto de os rapazes não lhe ligarem nenhuma, gozarem ou fugirem dela, enquanto as colegas com facilidade arranjavam namorado. Isso causava-me tristeza e dizia-lhe sempre que “há sempre alguém para alguém, só precisamos esperar pelo nosso momento”.

Esse momento surgiu! As coisas não correram bem, pois infelizmente nem todos os pais de pessoas com deficiência estão preparados para a vida amorosa dos seus filhos. Eu também não estava, mas sabia que faria sempre tudo para a ajudar…e às vezes ajudar é dizer “basta, esta situação não serve para ti!”.

Nesta altura surgem-nos muitas questões, muitas dúvidas, que nos fazem refletir sobre diversas questões. Namorar, com quem? Se fosse um rapaz normal deixava-me preocupada e desconfiada, pois acho que queremos as pessoas que têm os mesmos interesses que nós, que pensam de maneira idêntica, teria muito medo que só estivesse com ela para se aproveitar e fazê-la sofrer. Penso que seria mais natural que namorasse com um rapaz com T21, ou outra deficiência intelectual. A família, que família? Depois da primeira experiência percebi que teria de ser uma família que pensasse como nós, pois só ficaríamos descansados se assim fosse. Nunca poderia conceber que a tratassem mal! Não admitiria! Como toda a gente, ela tem direito a uma vida afetiva e sexual. Para isso o mais importante é estar informada e tomar decisões conscientes. Então falámos com a médica de família, mostrámos-lhe qual a nossa filosofia de vida, qual a nossa vontade e que reconhecemos à Joana autonomia e o direito de tomar as suas decisões, embora disséssemos também que necessita de o fazer de uma forma acompanhada. Desta maneira iniciámos este processo, em que a Joana foi informada dos métodos anticoncepcionais existentes, tendo depois escolhido o melhor para si. Fui apenas informada da sua decisão, com a qual concordei, li e presenciei a assinatura do seu consentimento informado.

Manifestações de afetividade. Connosco, ao princípio era estranho, mas são normais. Devemos ensinar que há sítio e hora para tudo. E depois há sempre o risco de serem gozados na rua! Sabemos que toda a gente tem necessidade de intimidade e privacidade…o mais seguro é em casa, mas pensar nisto não é fácil, muito menos proporcioná-lo! Casar, esse é o grande sonho dela. Por isso definitivamente sim, mas teria de ser  preparada para ser autónoma em todas as atividades domésticas, até aí sem problema. Sonho com um pequeno apartamento para ela viver, perto de mim, para a poder acompanhar e ajudar!

Ter filhos! Sim!? Tenho medo de muitas coisas, ela também tem…tem medo de ter um bebé como ela, tem medo que tenha cardiopatia, pois sabe que os bebés com T21 muitas vezes têm. Digo-lhe sempre que ter um filho é uma grande responsabilidade, tem de se ter uma vida estável, dinheiro, maturidade e responsabilidade…ela sabe isso tudo, mas tem esse sonho, tem esse direito!

E os meus medos? Bom, tenho medo da reação dos profissionais de saúde se ela ficar grávida, pois sei que a maioria vai achar absurdo e posso não poder acompanhá-la sempre, sei que vou ter de vestir uma armadura…e vestirei! Tenho medo que a criança quando crescer tenha vergonha da mãe…parece-me estúpido isto, mas tenho medo! Calculo que haja tantos outros medos à minha espera, mas por ela vou a todo o lado e enfrento qualquer coisa. Por ela arraso todos os medos e vou …

Guilhermina Cruz é mãe da Joana, 2016