O que já devia fazer e o peso de consciência

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O que já devia fazer e o peso de consciência

A minha filha Vera adora andar de baloiço.  Se não lhe disser nada é capaz de baloiçar por tempos infinitos. Se a minha filha não tivesse trissomia 21 não me incomodava a ideia de estar tanto tempo a baloiçar, sempre é melhor do que estar a ver TV ou a jogar Ipad, mas ela tem t21 e, por isso, tudo é diferente. Não devia estar a trabalhar com ela? Melhorar a leitura, a dicção, treinar as competências matemáticas e a tal da autonomia? Ela tem que saber atar os sapatos, vestir-se, combinar as cores, ser educada, saber pedir, verificar os trocos, mas está no baloiço a perder tempo, estando para ali a baloiçar. Oiço-a cantar ao longe, é o Agir, os D.A.M.A, as músicas dos morangos com açúcar, a chica vampiro. O que ela gosta de estar debaixo da nogueira grande! Apesar de a ouvir feliz, sinto-me sempre invadida por um enorme peso de consciência. Um sentimento que carrego desde que a minha filha nasceu.

Nos primeiros três anos era porque não andava, depois porque confundia as letras. Agora já sabe ler mas há muito ainda por fazer. Talvez devesse chamá-la para treinar o uso dos verbos, esquece-se deles nas frases, já devia saber, já tem 14 anos.

Provavelmente a culpa é minha, que devia ter feito mais, lido mais, aprendido mais sobre os variados métodos e efeitos. É a Buckley, o Doman, o Feuerstein e tantos outros que nos mostram o que devemos fazer, sem tréguas. Todos sabem como se faz. E eu, há dias que fico sem saber o que fazer? Será que devia ter feito de outra forma, talvez devesse ter sido mais consistente, focar-me naquilo que é prioritário. Confesso que, sinto uma inveja tremenda das mães capazes de trabalhar todos os dias com os seus filhos com t21. Não sou capaz, nem me apetece, nem tenho paciência, mas há sempre um peso de consciência que não me larga. Há sempre aquele miúdo que faz e acontece. Tenho sempre presente o “já devia fazer” e o “ainda não faz”. São os pais que apregoam os feitos, são os técnicos que nos recordam que devia apostar mais nisto e naquilo. Das coisas que mais me irrita ouvir é “aquele miúdo é muito bom”. Fico sempre a pensar o que é que isso significa. Nunca sei se se trata de uma comparação direta com a minha filha, o que é certo é que é um factor de stress, devia trabalhar mais, sempre, todos os dias. Se quero que a coisa vá, não pode cá haver férias. Não quer dizer que eu ache que não se deva trabalhar com os nossos filhos ou estimulá-los sempre que possamos, mas também precisamos de aprender a ver o nosso filho como único com as suas capacidades e dificuldades próprias. Longe de mim querer cair num discurso determinista. Acredito que todos nós podemos evoluir sempre e em qualquer momento da nossa vida, mas gostava de saber descontrair.

Por hoje deixo-a ficar no baloiço, até que o tal peso de consciência me volte a apanhar.

Marcelina Souschek, 2016

2019-03-13T22:04:30+00:0029 Dezembro , 2016|Artigos de Opinião|