Muitos pais não dão por isso, mas de repente têm a seu lado adultos de verdade. Podem ser baixinhos, continuar a gostar de bandas desenhadas e de ver filmes da Disney, mas cresceram e tornaram-se adultos.

Foi para isso que lutámos desde o primeiro dia, mas, no nosso subconsciente queremos que eles sejam sempre os nossos bebés – talvez porque a sua transparência e candura permanece intacta como no primeiro dia, e há menos respostas tortas e menos mau feitio do que nos nossos outros filhos já adultos ou adolescentes. Com estes, queremos que cresçam e sejam felizes mas ao mesmo tempo não queremos deixá-los voar. É uma luta permanente de que nos envergonhamos de falar, afinal é tão bom tê-los em casa, haver um sorriso quando chegamos, uma companhia certa …

Vejo muitas vezes os pais de jovens com trissomia 21, andarem na rua de mão dada com eles, como se isso fosse usual, como se fosse possível andarmos de mão dada com um filho de 25 anos! Parece tão natural, afinal os nossos filhos com trissomia 21 são pequenos e gostam sempre que lhes façam festas. Nós, sentimos um quentinho cá dentro e esquecemo-nos que podemos estar a arruinar todos os esforços que levamos a cabo o resto do tempo  para que eles tenham um lugar válido e respeitado na sociedade e sejam olhados como todos nós.

Tantos anos de terapias, de lutas na escola, de preparar para o trabalho e para a autonomia, para afinal sermos nós os primeiros a trata-los como bebés.  Não me excluo totalmente deste cenário, mas é uma luta permanente que nós pais temos de ter connosco: não vamos estar sempre cá para os proteger, então mais vale irmos “largando as rédeas” devagarinho, deixá-los ir de transportes, não ter medo de tudo, de os deixar em casa, de irem ás compras, de terem namorados, de irem ao cinema, disto ou daquilo.

No fundo temos medo de os perder, tal como acontece como os outros nossos filhos quando começam a sair de casa e a tornarem-se independentes. Os jovens com trissomia 21 têm sonhos, gostam de dançar, de ter namoradas e sabem muito bem do que gostam ou do que não gostam. Não devemos estar sempre a pensar por eles, a decidir por eles, a fazer em vez deles.

Se isso já deve ser uma regra quando são pequenos, muito mais importante é na idade adulta. Os pais, sob o reflexo tão arreigado da proteção, acabam por não deixar que eles cresçam. Não estamos a ajudar, não poderemos sempre “mascarar” de crianças os nossos filhos, só porque achamos que isso é melhor para eles ou porque o dar o passo em frente, treiná-los nos transportes ou dar autonomia dá forçosamente mais trabalho. Nunca poderemos falar de uma inclusão plena enquanto os pais não assumirem o seu papel. Para os que têm irmãos,  é fundamental que sejam o mais autónomos possível, um irmão com trissomia 21 deverá ser alguém que, com o devido apoio, possa ser um indivíduo com uma atividade, que tenha capacidade de ser uma pessoa válida, mas nunca um fardo, como o era há uns anos atrás.

Os nossos jovens adultos já abriram caminho para  um mundo impensável de trabalho, de autonomia: lêem, apanham transportes, têm opiniões, gostam de desporto ou de teatro, foram muito estimulados desde que nasceram – os resultados deste trabalho extraordinariamente difícil que todos os pais levam a cabo desde o dia do seu nascimento, deu muitos frutos, e temos de deixar de pensar só em nós e pensarmos um pouco mais naquilo que os nossos filhos são capazes de fazer. Vamos deixá-los dizer o que querem e pensam, não podemos sustentar o mito da eterna criança, isso é o arruinar do nosso sonho e daquilo pelo que lutamos desde que nascem.

Carmo Teixeira Turquin, 2016